Joyce Pascowitch Jornalista renomada e de grande destaque no Brasil e no exterior, Joyce Pascowitch comanda o Grupo Glamurama, que publica o site Glamurama, um dos veículos de maior audiência da internet, citado frequentemente por publicações internacionais. Além do site, o Grupo também edita as revistas Joyce Pascowitch, PODER, Modo de Vida e MODA.

  A primeira coisa que ouvi como comentário depois do pronunciamento de hoje de José Sarney foi que estava mais engraçado que o Pânico na TV. Ou do que o CQC, novo queridinho do gênero. Parece que num momento desses, Sarney perdeu todo o know-how, todo o jogo de cintura e sabedoria que acumulou nesses anos de política. Até nos discurso desta quarta-feira no Senado ele mostrou que já não é mais o mesmo: estava nervoso, inseguro. Se enrolou no texto – que leu, em vez de improvisar – e deu todas as bandeiras de que não estava confiante nele mesmo. Não se trata de quantos atos secretos. Não se trata de “gravações feitas pela mídia”. Aliás, ele próprio é “mídia”: dono de um império no Maranhão. Dono também de um museu que leva seu nome onde ele próprio se homenageou. Sarney teve uma oportunidade única de, no começo dessa confusão toda, se retirar dignamente. Podia dizer que não era esse fim que gostaria de viver como político. Mas não: preferiu manter um poder que há muito não mais lhe pertence. Sarney tinha um nome a zelar, como primeiro presidente – tudo bem que não foi eleito – dos tempos democráticos. Como um escritor que até se deu bem quando resolveu escrever um livro erótico, “Saraminda”. Mas o final do filme foi triste. Muito triste. Perdeu ele.

  Meu dia até que estava muito bom nesta sexta. Mas quando ouvi no rádio José Sarney citando Sêneca, confesso que tudo ficou cinza. Explicando: José Sarney é José Sarney. E Sêneca meu autor preferido. Conheci Sêneca quando William Li, tradutor de primeira, trabalhava na Folha de S.Paulo. A gente sempre conversava muito. William traduzia os livros de Sêneca para a editora Iluminuras, acho. William era um cara muito especial. Erudito. Ele já morreu, faz tempo, muito moço. Mas Sêneca, ele me deixou de presente. Para vocês que não conhecem, sugiro dois livros fininhos, básicos: “Sobre a Brevidade da Vida” e “Sobre a Tranquilidade da Alma e Sobre o Ócio”. Duas preciosidades que não deveriam nunca sair da cabeceira dos homens e mulheres importantes, que fazem a diferença na história do mundo. Sarney citou Sêneca porque Saulo Ramos já havia feito o mesmo em um artigo que o defendia. Sei que Sarney é um homem culto, que conhece filósofos e pensadores. Mas, sinceramente, nesta hora tão ingrata para o país e principalmente para a própria imagem do senador, Sêneca foi usado para servir como estratégia de redenção. Mas pensando bem, melhor Sêneca do que qualquer outro.

  A Bienal tem um novo presidente. José Sarney disse que não sabia que recebia dinheiro do auxílio-moradia. Vários livros adotados por escolas públicas de São Paulo estão sendo recolhidos por conteúdo inapropriado. Enquanto penso sobre tudo isso, fecho mais uma edição e acompanho os movimentos do site, me preparo para uma temporada de 14 dias observando o mundo. Prometo me fazer presente o máximo possível. Sempre com um olhar diferenciado sobre os lugares por onde passarei. Até já!