Joyce Pascowitch Jornalista renomada e de grande destaque no Brasil e no exterior, Joyce Pascowitch comanda o Grupo Glamurama, que publica o site Glamurama, um dos veículos de maior audiência da internet, citado frequentemente por publicações internacionais. Além do site, o Grupo também edita as revistas Joyce Pascowitch, PODER, Modo de Vida e MODA.

  Estou com uma hóspede em casa muito especial. É minha amiguinha do Rio, Ariane. Ela tem 13 anos, nunca tinha vindo a São Paulo e nem viajado de avião. Pois bem, nessa segunda que passou, eu trouxe comigo do Rio minha convidada especial para dez dias na cidade. Primeira surpresa: no caminho para o Santos-Dumont, ela dormiu no táxi! Mas como? A um passo de entrar pela primeira vez num avião e… nada? Segunda cena: dentro do avião: “Ariane, você está com medo?”. Resposta: “Eu não! Estou gostando!”. O voo não teve turbulência e Ariane ficou olhando pela janelinha, deslumbrada com o tamanho de São Paulo. Nestes dias, ela já foi ao Ibirapuera e ficou louca com a avenida Paulista. Foi ao museu da Língua Portuguesa e se encantou com o projeto Catavento, no parque Dom Pedro II. Passou lá três horas. Todos os programas ela tem feito com seu Alberto, meu motorista, que, aliás, está adorando a novidade: conhecer a cidade onde mora – ele é baiano, da Chapada Diamantina. Mas o melhor de tudo isso é ver alguém andando pela primeira vez de avião. Achando a avenida Paulista o máximo. Se encantando com a Oca. Posso dizer que quem mais está aproveitando essa viagem toda sou eu.

  De volta a São Paulo, em plena quarta-feira. Gozado viajar de tarde, num dia de semana. Chegar em São Paulo, vinda do Rio, sempre me dá uma coisa esquisita. O Rio é muito lindo. São Paulo é muito feia. Gosto, sim, daqui, de morar aqui. Mas gosto cada vez mais de respirar ar puro, de ver cenas e paisagens bonitas. De tomar sorvete na rua, de ficar sentada ao ar livre em restaurantes como O Celeiro, sem pânico, só “de boa”. Aqui em São Paulo, não sei se o problema é meu, mas levo uma vida estressada. Tenho horários pra tudo, até para me cuidar bem… Ficar parada no trânsito já não me deixa tão mal porque tenho sempre meus peludos comigo. Aproveito justamente esse tempo pra brincar com eles. Chego feliz em qualquer lugar. Mas confesso que o melhor dos mundos é poder ir e vir. Fui ao cinema no Rio, domingo, e estranhei: prefiro os de São Paulo. Mas aquela nonchalance, aquele jeito meio jogado de ser, sem pressa, só na contemplação… eu gosto. Voltei sem qualquer stress. Meu pescoço, que anda meio duro, meio travado, chegou aqui soltinho. Fiquei em casa, tomei um belo banho no meu chuveiro – que funciona muito melhor em São Paulo que no Rio -, andei pela casa. Confesso que apesar de me sentir feliz, rolou uma melancolia. Talvez porque o inverno aqui não me agrada. Talvez porque o sol de inverno no Rio me agrade muito. Mas tudo bem: hoje vou num japonês – os daqui são muito melhores que os de lá. Amanhã vou ao cabeleireiro – Mauro Freire também é muito melhor que os de lá. Mas sábado de manhã estou na Ponte, pronta para desembarcar – lá.

  Antes de mais nada, desculpas, desculpas, desculpas. Nessa quarta não consegui postar nada aqui por um simples motivo: estou aqui na Flip, em Paraty. E ontem foi a viagem, longa, para chegar aqui. Paraty é longe de São Paulo. Nessa época do ano ainda tem muita neblina na estrada… Enfim, cheguei de noite. E cansada, muito cansada. Para não ser punida por vocês, meus queridos internautas, prometo escrever hoje mais. Bem mais, ok? Vamos lá então? Uma das coisas mais bacanas do calendário cultural todos os anos é a Flip. Ótima desculpa para estar em Paraty, lugar super charmoso. E poder ficar quatro dias só falando e só ouvindo sobre escritores interessantes e livros é muito bom. Gente bacana circulando pela cidade. É algo como ir a Veneza durante a Biennale – muito melhor do que em qualquer outro período do ano. Paraty é um lugar incrível, mas tão mágico que não tem gente metida aqui. Sabe por que? Impossível andar por aqui de nariz empinado. Aqui só se anda olhando para o chão – que é para não tropeçar. Heheheh! Chão de pedras. Tão complicado de andar que eu só posso dar oi para as pessoas com as quais eventualmente cruzo pelas ruas se elas me chamarem. Porque olhando para baixo não vejo nem  as casinhas lindas da cidade – e muito menos quem está caminhando por lá. Uma loucura! Vi, de ontem para hoje, muitos tênis, sandálias e pés em geral. Pedras de todos os tamanhos. E só. Quando chego a algum lugar, dou graças por não ter levado um tombo. Hilário, porém verdadeiro. Mas para estar na Flip, participar desta festa, vale tudo.

  A primeira mesa que acompanhei hoje já valeu a vinda. Juntava Rodrigo Lacerda, jovem escritor de quem já li “Vista do Rio”- e adorei – e o cineasta Domingos de Oliveira. O tema? Separações.  Vou confessar que passei a manhã muito bem: Rodrigo Lacerda para mim representava naquela hora toda essa modernidade na qual, modestamente, me incluo. Domingos de Oliveira me remeteu à turma 68, meio Pasquim. Rodrigo falou muito bem de uma história de amor. Mas Domingos roubou a cena falando de homens, amores, mulheres, separações, voltas etc etc. Aos 72 anos de idade muito bem vividos – e fervidos-, fez a platéia pensar… e se divertir. Muito.  O melhor dos dois mundos, diga-se de passagem. Domingos me fez ver também, e eu acho que também a muita gente, o quanto às vezes essa história de intelectualizar, racionalizar, não tem muito a ver. Me senti meio que moderna “à força”. E percebi que seria muito bom dar uma recuada e virar mais emoção, mais loucura, mais coração. Domingos de Oliveira, com suas histórias bem pessoais sobre a vida, me fez achar graça de tudo aquilo que, às vezes, vejo como o lado ruim, o lado chato das coisas.  Simplesmente porque ele olha para tudo com graça. Aliás, existe outra maneira?

  Obras de arte, sejam quadros, canções, peças de teatro, livros ou filmes, quando são bons de verdade… são ótimos. E nada melhor que ser mexido por coisas assim. Eu pessoalmente adoro livros. O último que realmente me comoveu foi “O Fantasma Sai de Cena”, de Philip Roth. Teatro também adoro. Gosto de ver atores ao vivo, de perto. Acompanhar o trabalho deles, ver como eles se movem, falam, se transformam.

  Mas nesse fim de semana fiquei impressionada com o filme estrelado por Dustin Hoffman e Emma Thompson, “Last Chance Harvey”. Roteiro e direção sensível do inglês Joel Hopkins. O mais incrível é que o filme ganhou duas colunas em poucos dias na “Folha de S.Paulo”: de Contardo Calligaris e de Luiz Felipe Pondé. A história dos dois, nada jovens, com vidas difíceis, é como um sopro, um vagalume no meio da floresta. Dois perdedores que conseguem, com muito esforço, deixar de lado seus medos e suas noias para tentar mais uma vez – mas de outra maneira. A história passa pela filha que se casa, pela ex-mulher de Harvey, pelo marido dela. Por padrinhos desavisados e por uma mãe, da personagem de Emma Thompson, tantã. Tem de tudo, como na vida. E o melhor: tem saída.

  Acordo: tempo feio. Saio para análise, reiki etc etc: tempo feio. Venho trabalhar: tempo feio. Que mico. E depois, a gente ainda tem de ter bom humor, ficar bem disposta, não ficar angustiada, deprimida. Como, com esse cinza entrando na alma da gente? Estou vendo as ameixinhas da árvore do jardim daqui da Casa Glamurama tentando vir para fora. Não deve estar fácil para elas… As pitangas, minhas preferidas, nem tchuns. Devem ter visto que, por enquanto, a coisa não está rolando… Sei que a gente não pode ficar desanimada só porque o sol não deu as caras. Mas o fato é que eu fico. Luz é tudo, já diziam os fotógrafos e gente de TV. Eu também acho. Fica difícil ser criativo com um dia desses. Fazer planos, então, mais ainda. Como pensar em futuro num cenário escuro? Curtir o presente? Buda que me perdoe, mas dessa maneira, é fogo. Nunca me dei bem com o inverno em São Paulo. Meu pai também não gostava. Deve ser genético. Com certeza herdei isso dele e tenho o maior orgulho. Cinza, só na hora de se vestir. E mesmo assim, com uma etiqueta que segure o lance…