Joyce Pascowitch Jornalista renomada e de grande destaque no Brasil e no exterior, Joyce Pascowitch comanda o Grupo Glamurama, que publica o site Glamurama, um dos veículos de maior audiência da internet, citado frequentemente por publicações internacionais. Além do site, o Grupo também edita as revistas Joyce Pascowitch, PODER, Modo de Vida e MODA.

  A conjunção trânsito pesado, chuva e decoração de Natal é bombástica. Só mesmo com uma vávula de escape poderosa dá para aguentar até chegarem os benditos dez dias de férias e descanso entre Natal e Ano Novo. Talvez por isso eu só esteja pensando em coisas esquisitas. Em gente esquisita. Em saídas esquisitas para escapar da mesmice e de pessoas sem graça. Principalmente pessoas sem graça que se acham engraçadas. Talvez por causa do filme que assisti e adorei, “Rádio Pirata”. Talvez por ter ouvido Ronnie Von no meu Ipod e ter visto a foto dele na capa do disco, incrível, anos 70. Talvez por ter lembrado daquele filme, também incríve,l de Wes Anderson, “Os excêntricos Tenenbaum”. O fato é que, de repente, surgiu de novo em mim aquela vontade de sair dos trilhos, de voar, de ousar mais, de me perder, de me diluir em outras praias. Gosto dessa sensação porque me faz ver que o mundo é enorme, que existe espaço para todos, de vários estilos e maneiras, até os mais esquisitos. Sinto que, fora daquele lugar que parece confortável, mas que na verdade é super sem graça, bem, fora daí muita coisa boa pode acontecer. Claro, precisa arriscar. Mas quem está com medo?

  A primeira coisa que ouvi como comentário depois do pronunciamento de hoje de José Sarney foi que estava mais engraçado que o Pânico na TV. Ou do que o CQC, novo queridinho do gênero. Parece que num momento desses, Sarney perdeu todo o know-how, todo o jogo de cintura e sabedoria que acumulou nesses anos de política. Até nos discurso desta quarta-feira no Senado ele mostrou que já não é mais o mesmo: estava nervoso, inseguro. Se enrolou no texto – que leu, em vez de improvisar – e deu todas as bandeiras de que não estava confiante nele mesmo. Não se trata de quantos atos secretos. Não se trata de “gravações feitas pela mídia”. Aliás, ele próprio é “mídia”: dono de um império no Maranhão. Dono também de um museu que leva seu nome onde ele próprio se homenageou. Sarney teve uma oportunidade única de, no começo dessa confusão toda, se retirar dignamente. Podia dizer que não era esse fim que gostaria de viver como político. Mas não: preferiu manter um poder que há muito não mais lhe pertence. Sarney tinha um nome a zelar, como primeiro presidente – tudo bem que não foi eleito – dos tempos democráticos. Como um escritor que até se deu bem quando resolveu escrever um livro erótico, “Saraminda”. Mas o final do filme foi triste. Muito triste. Perdeu ele.

  Mais um dia cinza. Devo confessar uma coisa horrível: talvez para compensar essa melancolia de inverno, tenho comido pipoca todas as tardes. Isso mesmo. Como se estivesse no cinema, mas sem estar. Já acho chato esses dias, me dá vontade de ficar em casa. Como não posso, pelo menos uma pipoca para me sentir mais confortável, talvez. Claro que não compro pronta – peço milho, margarina e a Ana Paula, que trabalha aqui conosco, faz. Esses dias cinzas são difíceis. Não sei se vocês também acham, mas tendo a ficar angustiada, triste mesmo. Este ano está menos ruim para o meu lado, ainda bem. Mas confesso que faço de tudo para não sucumbir.

  O que eu gostaria mesmo de fazer em momentos desses? Em primeiro lugar, ir ao cinema. Quero assistir a “Caramelo” e “A Partida”. Recomendo desde já, antes mesmo de ver. Sei que os dois são incríveis. Queria também ficar em um lugar sossegado, lendo, ótima opção para um dia como este. Numa biblioteca. Me deu vontade de pegar um livro do Truman Capote, “Música para Camaleões” sobre uma milionária norte-americana que foi morar no Caribe e colocava seu piano – e tocava! – no meio da jungle. Foi Rodrigo Levino que me indicou. Acho que é de tudo o que eu preciso… Talvez também um frozen de chá verde que tem na alameda Lorena, em frente ao Santa Luzia. Enfim, ideias não me faltam. Para tudo. Ainda bem que vivo disso.