Joyce Pascowitch Jornalista renomada e de grande destaque no Brasil e no exterior, Joyce Pascowitch comanda o Grupo Glamurama, que publica o site Glamurama, um dos veículos de maior audiência da internet, citado frequentemente por publicações internacionais. Além do site, o Grupo também edita as revistas Joyce Pascowitch, PODER, Modo de Vida e MODA.

Não sei exatamente o que eu escreveria num guia de sobrevivência no mundo moderno. Pausas. Silêncio. Horas livres. Coisas do gênero. Mas na noite dessa segunda-feira tive mais um daqueles momentos especiais que fazem valer quase que toda uma existência. Exagerada? Um pouco, sim. Bastante, talvez. Mas a aula que tive ontem à noite sobre o discurso que o escritor húngaro Imre Kertesz fez ao receber, em 2002, o prêmio Nobel de Literatura… Bem, foram 90 minutos de pura emoção, de sentimentos profundos. Sobre o que quer dizer escrever, sobre o sentido disso, sobre viver situações além do limite – como ele viveu nos campos de concentração, aos 15 anos de idade. Foi uma coisa quase que inebriante. Me senti parte de um mundo enorme e não daquele que frequenta os Jardins, vai nos filmes de arte, janta no japonês e viaja pra Nova York. Me senti viva, um ser pensante. Ao mesmo tempo, senti uma pontada de orgulho ao perceber que a vida dele tocava em vários pontos pedaços não-reais da minha. Senti orgulho de escrever, mesmo que eu não seja uma escritora exatamente como ele e que nunca tenha ganho um prêmio sequer por isso. Mas eu estava entendendo muito bem tudo o que ele falava naquele discurso, que meu professor José Feres lia. Já falei muito aqui no blog sobre a importância das minhas aulas de segunda-feira: filosofia, literatura. Não faço a menor questão de ser ou parecer mais culta. Quero apenas me sentir plena. Ir além. E ser mais feliz.

Nesta quarta me estiquei toda e consegui pegar com minha mão uma pitanga bem carnuda aqui na árvore que enfeita minha janela no trabalho. Nesta quarta também cancelei o treino que faço todos os dias de manhã e fui até o Bom Retiro, sede da creche Betty Lafer, da Unibes. Lá, onde adoto quatro crianças de sete anos, três meninas e um menino, foi festejado, antes da hora e sem stress, o final do ano. Como vocês podem ver, meu dia hoje não poderia ser mais completo em termos de satisfação. As revistas, duas pelo menos, já fecharam a edição deste mês. Estamos fechando mais duas e, ufa, alguns dias para respirar. Some-se a isso um projeto de feriado pela frente eu posso até dizer: estou feliz. Na verdade, a gente não precisa muito mais do que bem pouco para se sentir assim. Mas a verdade é que a gente só sente mesmo isso quando não tem nada disso. Explicando melhor: a gente não dá o menor valor para a geladeira , por exemplo, até ela quebrar e a gente ficar um monte de dias tendo que guardar coisas em caixas de isopor. Uma chatice, não? Mas quem lembra daquela geladeira no dia a dia? Eu, pelo menos, não. Só na hora de abrir a porta bem de noite para pegar algo que eu não deveria… Todos esses devaneios só são possíveis porque hoje cheguei mais cedo, depois da festa das crianças. Estou no computador desde as 11 da manhã e agora, final da tarde, me sinto, pela primeira vez em dez dias, menos estressada. O dia a dia aqui não é bolinho. Ter de lidar com gente de todos os tipos pode ser muito interessante e, às vezes, também, muito chato. Imagino que em todo lugar seja assim. Mas eu peço licença e vou. Aliás, fui.